Hiperprodutividade e exaustão: o peso extra da inteligência artificial
Com a IA, profissionais produzem mais – porém terminam o dia com a sensação de que não deram conta de tudo. Entenda por quê.
Às 22h17, uma diretora de marketing revisa pela terceira vez um texto feito por inteligência artificial antes de enviá-lo ao CEO. Àquela altura, ela já tinha participado de seis reuniões, respondido a dezenas de mensagens no Teams, ajustado uma apresentação criada parcialmente por IA generativa e aprovado conteúdos que haviam chegado “praticamente prontos” das áreas. O ganho de velocidade, que deveria reduzir sua carga operacional, aconteceu assim: tudo passou a chegar mais rápido – e em maior volume.
Nos últimos dois anos, a inteligência artificial entrou nas empresas cercada de promessas de eficiência: menos tarefas repetitivas, mais tempo para bolar estratégias, automatização de rotinas. Um mundo novo em que teríamos executivos mais focados em pensamento crítico e tomada de decisão. Mas, à medida que a tecnologia se espalhou pelos ambientes corporativos, muita gente percebeu um efeito contrário: a produtividade aumentou sem necessariamente aliviar a exaustão. Em muitos casos, ela a aprofundou.
A nova lógica se mostrou um aumento conjunto de trabalho, para os robôs e para os humanos: se uma atividade ficou mais rápida, então é possível produzir mais entregas no mesmo período; se um relatório pode ser resumido em minutos, talvez seja razoável pedir três alternativas; se as apresentações ficaram mais fáceis de montar, podemos marcar mais reuniões.
Mais entregas, mais relatórios, mais reuniões… Mas a IA não veio para facilitar?
O estudo “Work Trend Index 2024”, da Microsoft, mostrou que 68% dos profissionais afirmam não ter tempo suficiente para se dedicarem a um trabalho ininterrupto e estratégico, enquanto quase metade relata sentir que o ritmo das demandas aumentou substancialmente. O levantamento identificou ainda um fenômeno da cultura contemporânea do trabalho: o chamado infinite workday, ou a sensação de que o expediente nunca termina.
Antes mesmo da explosão da IA generativa, a pesquisa “Anatomy of Work Index”, da Asana, já apontava que profissionais do conhecimento estavam gastando grande parte do seu tempo em “trabalho sobre trabalho”: reuniões, alinhamentos, trocas de mensagens, atualizações e coordenação operacional. A inteligência artificial não eliminou esse fluxo. Em muitos ambientes, ela o intensificou.
“O problema não é só fazer mais rápido. É que a velocidade redefine imediatamente a expectativa”, diz Kenneth Corrêa, estrategista de tecnologias emergentes e professor da FGV. Segundo ele, muitas organizações confundem ganho operacional com expansão infinita de capacidade. “A IA reduz atrito em algumas etapas, mas isso não significa automaticamente redução de carga mental. Em muitos casos, a pessoa passa a operar num volume muito maior de informação, decisão e validação.”
A produtividade que nunca basta
Se a gente parar de se deslumbrar com a tecnologia e enxergar direito sua inserção no processo, vai perceber: a IA raramente elimina completamente tarefas. O mais comum é que ela transforme a natureza delas. Textos produzidos por ferramentas generativas precisam ser revisados. Dados sintetizados exigem checagem. Relatórios resumidos ainda demandam interpretação contextual. O trabalho diminui em algumas frentes, mas cresce em supervisão, refinamento e curadoria. Daí a fadiga cognitiva.
O relatório “Global Human Capital Trends: Thriving Beyond Boundaries”, da Deloitte, aponta impactos da transformação tecnológica no ambiente corporativo, o fato de ela afetar a “sustentabilidade humana” e o aumento do estresse no trabalho. Porque as pessoas passaram a administrar fluxos mais rápidos, com maior expectativa de disponibilidade e uma quantidade crescente de decisões simultâneas.
Pedro Teberga, especialista em negócios digitais e professor universitário, observa que a IA alterou profundamente a percepção de tempo dentro das organizações. “Quando a entrega acelera, o intervalo de tolerância desaparece. O que antes era entendido como prazo razoável passa a parecer lentidão.”
Com isso, a régua de desempenho sobe continuamente, mas sem negociação anterior. E a consequência aparece em comportamentos cada vez mais comuns nos escritórios: profissionais revisando respostas de IA durante reuniões; gestores administrando simultaneamente múltiplos canais de comunicação; equipes inteiras funcionando em estado de prontidão constante.
Essa hiperdisponibilidade, antes associada principalmente ao smartphone e ao trabalho remoto, ganha uma nova camada com a inteligência artificial. Afinal, se a tecnologia permite produzir em menos tempo, o silêncio de quem está trabalhando no seu próprio ritmo começa a ser interpretado como improdutividade.
O levantamento “Slack Workforce Index”, da plataforma de comunicação Slack, apontou que os trabalhadores vivem um cenário de fragmentação permanente da atenção. As interrupções constantes, o excesso de mensagens e a alternância contínua entre tarefas dificultam períodos de concentração profunda. A IA, em tese criada para simplificar fluxos, passou em muitos contextos a alimentar exatamente esse déficit de atenção.
Ana Cester, Chief Data & Transformation Officer na Africa Creative, observa que parte das empresas ainda está adotando inteligência artificial sem discutir o impacto humano dessa aceleração. “Existe uma ansiedade nas equipes. As pessoas sentem que precisam entregar mais o tempo inteiro porque agora há uma ferramenta capaz de acelerar processos.”
Segundo ela, o problema não está necessariamente na tecnologia, mas na cultura que se constrói ao redor dela. “Quando eficiência vira apenas aumento de volume, você não está criando produtividade sustentável. Está criando sobrecarga sofisticada.”
Pseudoeficiência
Há outra camada nessa transformação: as pessoas sentem que precisam demonstrar atividade para garantir o emprego. Em artigo publicado na Você RH, Paulo Exel, fundador da Rooby HR, propõe uma provocação que começou a circular com força entre executivos: as empresas estão realmente mais produtivas ou apenas mais ocupadas com IA? A reflexão toca num ponto sensível da atual cultura corporativa. Parte relevante do que hoje se interpreta como produtividade talvez seja apenas intensificação de atividade.
“Existe uma dificuldade muito grande hoje de separar o que é prioridade real do que é só excesso de estímulo chegando o tempo inteiro”, aponta Ana. “As pessoas terminam o dia exaustas sem necessariamente sentir que concluíram alguma coisa relevante.”
A pseudoeficiência aparece quando o aumento de velocidade não vem acompanhado de melhor decisão, maior profundidade ou redução concreta de desperdício. Esse é um movimento bem perceptível em ambientes de atividade intelectual. A IA acelera a produção, mas também multiplica versões, testes, simulações, reuniões e ciclos de revisão. “O trabalho criativo ficou muito mais fragmentado. A pessoa sai de uma análise, entra numa revisão, depois aprova conteúdo, responde mensagem e volta para outra demanda”, diz Pedro.
“O risco é transformar profissionais altamente qualificados em operadores contínuos de fluxo”, afirma Kenneth Corrêa. “A tecnologia amplia capacidade, mas sem critério organizacional isso vira apenas expansão permanente da demanda.”
A carga mental para os líderes
Esse paradoxo fica ainda mais evidente entre lideranças. O estudo “State of the Global Workplace 2025”, da Gallup, revelou que gestores estão entre os grupos mais pressionados do ambiente organizacional contemporâneo. São eles que absorvem simultaneamente pressão por inovação, velocidade, adaptação tecnológica e gestão emocional das equipes. Com a IA, parte desse peso se intensificou.
Líderes precisam decidir rapidamente sobre adoção de ferramentas, avaliar riscos, revisar conteúdos produzidos automaticamente, administrar ansiedade interna sobre substituição tecnológica e, ao mesmo tempo, manter resultados de curto prazo. Não por acaso, cresce o debate sobre exaustão cognitiva em cargos estratégicos.
Os estudos publicados pela MIT Sloan Management Review sobre IA e trabalho vêm discutindo como a inteligência artificial está alterando a atividade intelectual não apenas operacionalmente, mas cognitivamente. A questão central já não é apenas “quanto trabalho foi automatizado”, mas que tipo de carga mental passou a existir depois da automação. Menos esforço repetitivo não significa necessariamente menos desgaste intelectual.
É preciso diminuir o ritmo
A discussão sobre inteligência artificial no trabalho talvez esteja entrando numa fase mais complexa e mais honesta. A questão relevante passa a ser: o que as empresas fazem com o tempo economizado? O resultado é um tipo de ambiente corporativo permanentemente sob tensão.
Pedro Teberga observa que muitas organizações ainda tratam a IA apenas como ferramenta de aceleração, sem revisar modelos de gestão. “Antes existia um limite mais claro do que era uma entrega possível dentro de um prazo. Agora esse limite ficou muito nebuloso.”
A IA provavelmente continuará aumentando a produtividade. As organizações que conseguirem atravessar essa transformação de maneira mais sustentável provavelmente serão aquelas capazes de resistir à hiperocupação permanente. Porque existe uma diferença importante entre uma empresa produtiva e uma empresa incapaz de desacelerar.
Este texto faz parte da edição 104 da Você RH, que chega às bancas a partir do dia 5 de junho.






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