Carta ao leitor: minha síndrome do pânico
Na edição 103 da Você RH, o editor-chefe da revista conta como uma questão de comunicação estendeu um sofrimento e compartilha suas esperanças para a nova NR-1.
Aconteceu no paleolítico, quando eu ainda rascunhava meus primeiros textos jornalísticos. Trabalhava em uma revista de nicho muito específico, num pequeno negócio familiar – eu, o único sem ligação de sangue ali. Éramos quatro: o pai, dono e principal jornalista (coisa fácil: o outro era eu); a filha, no marketing; o filho, na administração.
Todos me tratavam bem, mas havia um problema: a comunicação interna. O pai, pela autoridade profissional, quase nunca era acessado; os irmãos brigavam sempre que tentavam conversar, então… não conversavam.
O trabalho era moleza. Eu vivia sossegado naquele espaço silencioso… até que tive uma síndrome do pânico. O primeiro episódio veio no cinema: saí no meio da sessão, com medo de morrer, sem entender o que estava acontecendo. Fui ao hospital e saí de lá não com uma cirurgia no coração, mas com um ansiolítico – que me trouxe de volta ao normal.
Eu e meus pais achamos que era algo pontual, sem necessidade de tratamento. Mas, não: as crises passaram a acontecer no escritório, sem gatilho aparente. Eu me trancava no banheiro, suando frio, tentando esconder o que sentia.
Então é que fui atingido pelos problemas de comunicação dali. Se nem os filhos do chefe ousavam falar com ele, como eu iria revelar uma situação psiquiátrica? Escondi meu estado, falhei nas minhas tarefas, até que me curei, meses depois… com ajuda de acupuntura. Ainda sou grato ao chinês das agulhas pelo fato de a síndrome nunca ter voltado.
Os riscos psicossociais que a NR-1 quer prevenir nem sempre são tão evidentes. Eu não tinha um chefe tóxico, meus colegas se davam bem comigo, o trabalho não tinha pressão… Mas uma questão de comunicação corporativa estendeu um sofrimento psicológico e teve impacto no que eu entregava à empresa.
Que estejamos, com o início dessa norma ampliada, garantindo ambientes em que a saúde mental dos profissionais não seja testada o tempo inteiro, e que os casos que vêm de fora do escritório tenham escuta verdadeira, com empatia, acolhimento e orientação. Pena não ter sido pensada antes.
Este texto faz parte da edição 103 da Você RH, que chegou às bancas no dia 4 de abril.





