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Diana Gabanyi

Por The School of Life Materia seguir SEGUIR Seguindo Materia SEGUINDO
Cofundadora e CEO da The School of Life Brasil

Liderança exausta: como cuidar do outro sem estar bem?

Estudo revela que 49% dos líderes operam no limite, impactando a saúde mental das equipes e exigindo um novo olhar para o bem-estar no trabalho.

Por Diana Gabanyi, colunista da VOCÊ RH 9 Maio 2026, 12h57
A triangular stack of blue cubes beginning to fall apart
 (Richard Drury/Getty Images)
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Nunca se falou tanto sobre bem-estar e saúde mental no ambiente de trabalho, especialmente na liderança. Criamos políticas, benefícios, discursos e até uma estética do autocuidado. No entanto, algo permanece desalinhado. Um estudo recente da The School of Life em parceria com a Robert Half mostra que 40% dos gestores não mantêm um alto grau de alinhamento de valores pessoais com o próprio trabalho.

Outra parcela significativa (49%) dos 387 entrevistados do Brasil dificilmente consegue cumprir atividades sem sentir sobrecarga física ou emocional. Há, ainda, um grupo (56%) que, com frequência, trabalha sob dois fatores muito perigosos para a produtividade: prazos pouco realistas ou ausência de recursos necessários.

Quando questionados sobre a frequência da sensação de felicidade no trabalho, 38% se dividiram entre as respostas “às vezes”, “raramente” e “nunca”. E talvez isso revele algo mais profundo do que uma falha de percepção. Pode indicar uma dificuldade mais estrutural: sugere uma dificuldade de compreender o que significa bem-estar e como torná-lo, de fato, uma experiência concreta no dia a dia.

Estar bem por si e pelos outros

Para quem lidera, o tema bem-estar ganha uma camada adicional de complexidade. Essa pessoa não precisa estar bem apenas por ela. Isso porque estudos já mostraram que o impacto de um líder na qualidade de vida de alguém pode ser tão significativo quanto o de um parceiro ou até de um terapeuta.

Isso não é pouca coisa. Significa que, no cotidiano, nas pequenas decisões, no tom de voz e na forma de organizar o trabalho, gestores estão constantemente influenciando a saúde emocional de outras pessoas. E fazem isso sem poder se dar ao luxo de deixar de lado suas inquietações pessoais e profissionais. Uma dualidade bastante delicada.

Liderar e promover o bem-estar exige, antes de tudo, estar minimamente bem. Mas, na prática, muitos gestores operam no limite. Agora, com a NR-1, inevitavelmente terão que olhar verdadeiramente para o cuidado com a equipe. Mas os movimentos só serão efetivos se esse líder não negligenciar a própria saúde mental e emocional.

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É preciso reconhecer também uma realidade negligenciada e que sempre relembramos nas experiências da The School of Life: emoções são, por natureza, instáveis. Se dependermos exclusivamente delas para validar nosso equilíbrio, estaremos sempre à mercê de oscilações que não podemos controlar. Ninguém é feliz o tempo todo.

É por isso que, com relação à felicidade, os filósofos gregos ofereciam uma alternativa: a ideia de realização. Um estado que não exclui o desconforto, mas o integra à vida cotidiana. Sob essa ótica, é possível estar sob pressão, enfrentar um dia difícil, sentir-se inseguro e, ainda assim, estar vivendo de forma coerente, significativa, alinhada com aquilo que importa para nós mesmos.

O que tenho aprendido na troca com psicólogos e filósofos da escola é que há algo de profundamente verdadeiro nisso. E se abrir para essa ideia é uma atitude libertadora, porque ela nos libera para reconhecer que um certo grau de instabilidade não é um erro do sistema humano. É parte da experiência de estar vivo, de crescer e de liderar.

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Para quem ocupa posições de liderança, essa é uma mudança de perspectiva. Ela amplia o espaço interno. Permite reconhecer que nem tudo precisa estar perfeito para que algo esteja funcionando. Permite, até mesmo, que a gente se mostre vulnerável, o que pode ser um alívio para a equipe.

O ambicionado equilíbrio entre vida e trabalho

Quando mudamos o foco da felicidade para a realização, também passamos a olhar para a vida de forma mais inteira. Trabalho, corpo, relações, orçamentos, ambiente e desenvolvimento pessoal se integram em um todo. O bem-estar deixa de ser um estado fixo e passa a ser um processo em constante ajuste. A partir daí, liderar com bem-estar deixa de ser uma promessa e se torna um exercício mais realista.

Tenho notado que há fatores no trabalho que promovem satisfação, como propósito, autonomia e oportunidades de crescimento. E há aqueles que são essenciais para evitar a insatisfação: condições adequadas, respeito e equilíbrio entre vida e trabalho. Além disso, o ambiente tóxico figura como o principal motivador de pedidos de demissão para 43% de um grupo de 378 respondentes, conforme outra pesquisa que fizemos em 2023.

Nesse contexto, é importante destacar que um aspecto positivo não compensa automaticamente outro que seja negativo. Um ambiente de trabalho agradável, sustentado por um trabalho sem sentido, dificilmente se mantém por muito tempo. Da mesma forma, nem mesmo o trabalho mais significativo resiste a níveis elevados e contínuos de exaustão.

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Quais são seus limites como líder?

Liderar com bem-estar exige, então, uma boa dose de autoconhecimento e inteligência emocional. Envolve identificar, com honestidade, quando limites estão sendo ultrapassados, o que está faltando e o que está desalinhado. É abandonar a expectativa de ter todas as respostas. É reconhecer que nem todas as variáveis de uma situação ou de um projeto estão sob nosso controle.

Não é algo simples. Não se trata apenas de disciplina e consistência, mas de uma transformação profunda. Tem a ver com mudança de hábitos, pensamentos e cultura. E se você ainda não tem muita clareza sobre esse caminho, comece por algo essencial: escuta e presença, com relação a você e ao outro.

Como dizia a filósofa Simone Weil, “a atenção é a forma mais rara e mais pura de generosidade”. E essa tem se mostrado uma qualidade vital da liderança consciente.

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