O que é e como realizar uma demissão humanizada
Boas práticas permitem amenizar o sofrimento – sobretudo em tempos de cortes em massa – de quem é desligado e também de quem fica.
esde o ano passado, demissões em massa em algumas das maiores e mais bem-sucedidas empresas de tecnologia do mundo estão ganhando manchetes na imprensa. O acontecimento, dramático por si só, tem nuances de crueldade. Algumas companhias estão desligando seus funcionários sem o cuidado necessário. Trata-se de um movimento oposto ao conceito de demissão humanizada, que visa reduzir o impacto negativo de um corte tanto para o colaborador quanto para a empresa.
Um dos casos recentes entre os nada humanizados foi o do Twitter. Adquirida por Elon Musk em outubro de 2022, a rede social reduziu sua força de trabalho de pouco menos de 8 mil pessoas para 1.500. Ex-funcionários usaram a própria plataforma para postar mensagens sobre a maneira como foram dispensados. Alguns relataram ter recebido pouco ou nenhum aviso prévio de sua rescisão. Vários descobriram que perderam seu emprego porque tiveram sua conta de e-mail e acesso ao computador bloqueados. Em entrevista à BBC, Musk argumentou que “não é possível falar com tanta gente cara a cara”.
Um ano antes, Vishal Garg, CEO da empresa de hipoteca Better.com, anunciou em uma única reunião por Zoom a demissão de 900 funcionários. “Se está nesta teleconferência, você faz parte do grupo azarado que está sendo demitido”, disse, com frieza.
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Ponto fraco das empresas
Embora sejam exemplos extremos de brutalidade, a inabilidade do Twitter e da Better.com não pode ser considerada exceção. A maior parte das companhias não dá a devida atenção a essa etapa da jornada do colaborador, segundo o estudo Employee Experience 2022, elaborado pelo Great Place to Work. A pesquisa, que mapeia a experiência das pessoas nas organizações, da entrada à saída, concluiu que a última é a etapa mais frágil delas.
O levantamento revelou que 72,2% das corporações não treinam ou capacitam suas lideranças sobre demissão – um dado que o relatório considera “alarmante”. Além disso, em 45,1% das empresas não há critérios bem definidos para dispensar uma pessoa. A maior parte (84,2%) faz uma reunião individual para comunicar o desligamento do funcionário e outra para dar a notícia ao resto da equipe (57,4%). “Nestes tempos em que falamos e defendemos uma demissão humanizada, com processos e comunicações mais empáticos e personalizados, é preocupante que líderes não estejam recebendo a devida qualificação para colocar isso em prática”, diz o estudo.
Eliminar vagas e substituir funcionários, lamentavelmente, faz parte do jogo e pode ser uma medida necessária para o negócio parar em pé. Comunicar um corte nunca é fácil. No entanto, com alguns cuidados, é possível amenizar o sofrimento dos envolvidos. “As pessoas podem até esquecer que foram demitidas. Mas jamais esquecerão a forma como foram demitidas”, atesta Irene Azevedo, líder de transição de carreira para executivos na LHH.
Para ela, a etapa mais importante de um processo de demissão humanizada é o treinamento da liderança. Ao comunicar um desligamento, o gestor deve explicar, individualmente, o contexto do corte, o motivo de aquela pessoa ter sido escolhida, o pacote de benefícios que a organização vai oferecer e os próximos passos para o colaborador. Ele precisa também oferecer escuta e tirar eventuais dúvidas do ex-funcionário. Ao fim, é fundamental comunicar a equipe que ficou.
“O líder tem de reconhecer também seus próprios sentimentos, porque ele pode estar triste, amedrontado e ansioso, para depois passar tranquilidade para sua equipe. Ele precisa estar perto, se colocar à disposição para escutar o que o time tem a dizer e não assumir que está tudo bem. Porque não está”, afirma Azevedo, da LHH.
Bom para o negócio
No Glassdoor, o famoso site de reviews corporativas, um dos critérios depreciativos para uma marca é justamente a experiência de saída dos funcionários. “Quem não se sente respeitado no desligamento tende a votar [na plataforma] e se tornar um detrator da empresa, que terá problema para recrutar novos funcionários”, aponta Carla Esteves, sócia e co-CEO da Cia de Talentos. Ademais, uma pessoa maltratada dificilmente vai querer segurar o mesmo crachá.
Trata-se de mais um problema para a companhia, considerando que 86,5% delas já recontrataram colaboradores demitidos, de acordo com o estudo Employee Experience 2022.
Para além da empatia e da saúde mental, a demissão humanizada é uma estratégia de negócio. “O conceito de employer branding, ou marca empregadora, está na pauta de todas as empresas. É uma tendência forte desenhar a melhor jornada possível para o colaborador, da chegada à saída, para que a marca seja bem-vista não só para quem quer trabalhar lá, mas para quem quer consumir seus serviços e produtos”, diz Carla Esteves. “Millennials e a geração Z já não compram de uma corporação que não admiram.”
Em 2020, o Airbnb reduziu 25% de sua força de trabalho e se tornou um case de demissão humanizada. Em uma mensagem aos funcionários, o cofundador e CEO da plataforma, Brian Chesky, explicou o contexto do corte: incerteza sobre como o vírus da covid-19 poderia afetar a startup.
Entre os benefícios oferecidos à equipe, estavam 14 semanas de salário-base, mais uma semana adicional para cada ano de casa, cobertura do plano de saúde por 12 meses e ajuda para recolocação no mercado de trabalho.
O que diz a lei
Não existe previsão legal sobre a maneira como uma pessoa deve ser mandada embora. Se uma corporação quiser dispensar um funcionário por WhatsApp, por exemplo, ela pode. “Não é a maneira mais elegante ou adequada. Mas, a rigor, o WhatsApp é um meio lícito de comunicação”, explica o advogado Paulo Renato Fernandes da Silva, professor de direito trabalhista da FGV Direito Rio.
O que o empregador não pode é divulgar publicamente o motivo do corte, mesmo que tenha sido por justa causa. Nem, tampouco, humilhar a pessoa afastada, impedindo que ela pegue seus pertences, por exemplo. “São violações à privacidade, intimidade e imagem do trabalhador. Nessas situações, pode caber uma ação judicial”, diz o advogado.
Mesmo que não seja proibido, ninguém vai se sentir minimamente acolhido se for dispensado por WhatsApp, e-mail, carta ou sinal de fumaça. No contexto de demissões em massa, é um desafio desligar os colaboradores de maneira individualizada e, ao mesmo tempo, ágil. “Algumas empresas erram a mão, fazendo comunicados coletivos. Na medida do possível, a recomendação é não ir por esse caminho”, aponta Carla Esteves.
No cenário ideal, as corporações deveriam organizar uma agenda sincronizada entre líderes. Os cortes ocorreriam de maneira personalizada e mais ágil, para evitar que a radiopeão se transforme em medo generalizado. Se a companhia estiver em trabalho remoto, que a conversa seja por videochamada, mas individualizada. “A equipe de RH deve estar de prontidão para dar continuidade a cada processo, depois da conversa do colaborador com o líder”, diz Esteves.
Para a co-CEO da Cia de Talentos, a demissão humanizada é uma tendência que veio para ficar. “Ela oferece um benefício para as três partes: os colaboradores desligados, os que ficam e a empresa em si. Não vejo motivo para não planejar algo que seja ganha-ganha para esse tripé todo”, diz ela. “Se a gente cuida tanto da chegada das pessoas, tem que cuidar também para que o ciclo seja encerrado de forma cuidadosa e respeitosa.”





