Confesso: sou coach. E com orgulho
O coaching é alvo de memes e falsas expectativas. Conheça, então, seu real papel: ajudar alguém a encontrar as próprias soluções e expandir seu potencial.
Outro dia me peguei titubeando para responder a uma pergunta simples e corriqueira: “Com o que você trabalha?”. Honestamente, já faz algum tempo que tenho dificuldade em responder. O motivo? Sou coach.
Quando sua profissão vira meme; quando aparece em sketches do Porta dos Fundos, cenas de Em Terapia e monólogos de stand‑up; quando supostos profissionais autodeclarados coaches lotam auditórios prometendo transformar vidas com performances quase circenses… é complicado assumir-se coach.
Para piorar, o termo é um anglicismo, o que não facilita a compreensão. O Cambridge Dictionary lista traduções que vão de treinador(a) a instrutor(a), passando até por ônibus. E, quando pensamos em “treinador”, imaginamos alguém que vai ensinar a fazer algo que não sabemos fazer. Num piscar de olhos, o coach passa a ser visto como alguém que deveria resolver para o(a) cliente aquilo que a pessoa não conseguiu resolver sozinha.
O coaching como o entendemos hoje nasceu nas quadras de tênis, na década de 1970, quando Tim Gallwey, percebeu que quanto mais instruções técnicas dava aos alunos (“gire o pulso”, “mude a posição dos pés”), mais tensos eles ficavam, e pior jogavam. Em The Inner Game of Tennis (1974), Gallwey mostrou que o verdadeiro adversário não estava do outro lado da rede, mas dentro da cabeça do jogador. O sucesso do livro fez líderes corporativos perceberem que os mesmos princípios de foco, redução de autocrítica e liberação de potencial se aplicavam perfeitamente ao mundo organizacional, consolidando as bases do coaching atual.
Com a entrada do coaching nas organizações, a tradução “treinador” ganhou força. Mas ela também gerou uma expectativa equivocada: a de que coach seria alguém que dá respostas. As associações globais de coaching, como a ICF (International Coaching Federation) e a EMCC (European Mentoring and Coaching Council), porém, definem o coaching como uma parceria profissional que promove um processo criativo, reflexivo e orientado ao desenvolvimento, no qual o cliente é reconhecido como especialista da própria vida e capaz de acessar seus próprios recursos.
Essa parceria apoia a aprendizagem contínua, o desenvolvimento de competências, a melhoria da performance e o bem-estar, sustentada por padrões éticos rigorosos, responsabilidade social e práticas de supervisão que asseguram qualidade e impacto. Nada mais distante da ideia de auditórios lotados com alguém autointitulado coach vociferando soluções mágicas.
Foco na pessoa, não no problema
Uma das primeiras 25 profissionais no mundo a ser credenciada como MCC (Master Certified Coach) – credencial que menos de 5% dos coaches com certificação atingem –, Marcia Reynolds é célebre por ensinar a usar a escuta profunda e o desconforto emocional como catalisadores para desarmar bloqueios mentais. Em seu livro Coach the Person, Not the Problem, ela defende que o papel do coaching não é solucionar o problema para o cliente. O foco é na pessoa.
Outros expoentes como Julio Olalla (coaching ontológico) e Bebe Hansen (presence-based coaching), embora provenientes de tradições distintas, convergem na mesma premissa: o verdadeiro impacto acontece quando o foco está na pessoa, e não no problema. Olalla desloca a atenção do “fazer” para o “ser”, mostrando que transformação sustentável nasce da coerência entre linguagem, emoções e corpo. Hansen enfatiza a presença consciente como fundamento para escolhas mais sábias: ao cultivar pausa, centramento e consciência somática, o cliente aprende a responder à complexidade com recursos internos renovados, em vez de repetir padrões antigos. Coaching de alto nível não é resolver questões pontuais, mas expandir quem o cliente é.
O que esse foco na pessoa significa na prática
Imaginemos um executivo sob grande estresse, com insônia e dores nas costas, que em uma sessão declara: “eu não posso errar”. Um coach sem sólida formação pode se sentir tentado a ajudar esse executivo a tomar as “melhores” decisões, influenciando o cliente a fazer aquilo que considera mais acertado. Seria um desserviço – e, pior, criaria dependência. Mesmo que esse coach fosse experiente no setor e desse um conselho que funcionasse, o cliente estaria mais bem equipado para desafios futuros? Ou ficaria dependente desse coach?
Se compreendermos os pilares da ICF e da EMCC, que reforçam o aprendizado autodirigido e devolvem ao indivíduo a capacidade de encontrar suas próprias soluções, fica claro que esse coach não entregou o que um processo legítimo de coaching deve entregar.
Para isso, o coach precisaria explorar as brechas que surgiram na sessão.
Brecha: A crença “eu não posso errar”
Perguntas que acessam a raiz identitária, não o comportamento: “Quando você diz ‘eu não posso errar’, quem é a pessoa que você acredita que precisa ser?”; “O que você teme que aconteça se você errar diante dessas pessoas?”; “O que você protege quando tenta não errar?”.
Brecha: O corpo como fonte de sabedoria
O cliente trouxe dor, insônia… isso é material vivo. “O que seu corpo está tentando te mostrar que sua mente ainda não quer ver?”; “O que muda no seu corpo quando você imagina não ter todas as respostas?”; “O que seu corpo sabe sobre esse momento que você ainda não colocou em palavras?”.
Brecha: O que está vivo agora
Perguntas que trazem presença radical: “O que você não disse ainda porque talvez seja difícil dizer?”; “O que você percebe em você enquanto fala disso?”.
Brecha: Transformação (não insight)
Perguntas que movem identidade: “O que seria possível para você se o erro deixasse de ser uma ameaça?”; “Quem você seria sem essa exigência de perfeição?”; “O que você precisa liberar para se tornar quem está tentando emergir?”.
Essas perguntas focam no “ser” do cliente, ampliam autoconsciência e abrem espaço para novas possibilidades – não para respostas prontas.
Quando eu trabalhava como gerente de educação corporativa, muitas vezes precisei explicar que um coach que já teve o cargo do cliente não era, necessariamente, o melhor profissional para apoiá-lo. A expectativa era de alguém que desse respostas, mas isso gera apenas ganhos de curto prazo. Não desenvolve o profissional. Em outras palavras, não é o melhor uso do recurso.
Então, “com o que trabalho?”. Quem pergunta tem em mente os memes, as piadas, os pseudo-coaches e suas soluções mágicas. Na minha mente, tenho as referências – algumas das quais compartilhei aqui – que me orientam e me desafiam a fazer algo que não é trivial: provocar reflexão que leva ao questionamento de visões de si e do mundo que talvez tenham sido úteis até agora, mas que não são mais.
E você, como RH, o que responde aos clientes internos quando querem entender melhor o que é coaching?






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