O primeiro emprego em tempos de inteligência artificial
Ponto central da discussão sobre IA e mercado de trabalho está menos na eliminação de vagas de entrada e mais na transformação do escopo dessas posições.
A discussão sobre inteligência artificial e mercado de trabalho costuma cair em uma previsão simplista: jovens serão os primeiros a perder espaço. Raciocínio que ganhou força principalmente nos Estados Unidos, onde há sinais de deterioração nas condições de entrada para recém-formados. No fim de 2025, a taxa de desemprego entre tais graduados chegou a 5,7%, enquanto a subocupação atingiu o maior nível desde 2020 (42,5%).
No setor de tecnologia, estudos recentes mostram que a contratação de quem acabou de sair da faculdade caiu bastante em relação à pré-pandemia. O tema não é especulação. Mas a leitura simples de que a IA substituirá os jovens parece insuficiente para explicar o que de fato está acontecendo.
Entendo que o ponto central está menos na eliminação de vagas de entrada e mais na transformação do escopo dessas posições. Antes, o processo de aprendizagem na carreira começava com tarefas mais operacionais e repetitivas. Hoje, inicia com ações aceleradas ou absorvidas por ferramentas de IA.
O Fórum Econômico Mundial destacou que os postos de entrada recuaram 35% em 18 meses, em um contexto de automação e demanda por novas habilidades. O Future of Jobs Report 2025 estima que 39% das competências atuais vão mudar ou se tornarão ultrapassadas até o final da década.
No Brasil, em vez de deixar de contratar jovens, muitas empresas estão revisando o escopo dessas pessoas antes do processo seletivo. Em vez de apenas executar, espera-se mais capacidade de síntese, leitura de contexto, autonomia, priorização e uso inteligente das ferramentas disponíveis. E isso desloca o debate para um terreno mais útil: como formar e empoderar esses profissionais na era da IA.
Diferentes potenciais entre o jovem e a máquina
O jovem é um ser humano em formação, com potencial de atributos que a inteligência artificial não reproduz de maneira plena: empatia, sensibilidade situacional, capacidade de aprender, escuta, interação social e adaptabilidade.
A IA pode tanto ampliar quanto achatar o repertório. Ela acelera tarefas e libera tempo para estratégias. Mas pode encurtar etapas importantes de aprendizado e criar uma falsa sensação de domínio das atividades. Tudo depende da consciência em sua utilização. E estudos recentes sobre impacto da IA no trabalho já apontam risco de erosão de competências, principalmente em funções mais expostas à automação de tarefas cognitivas básicas.
Para o RH, isso abre uma agenda concreta de ação. Programas de estágio, trainee e entrada de analistas talvez precisem ser redesenhados. Não para competir com a inteligência artificial, mas para conviver melhor com ela. Isso envolve rever trilhas de desenvolvimento, as formas de feedback e, principalmente, o papel da liderança direta.
Experiências que garantam exposição a contextos reais de resolução de problemas precisam existir. Responsabilidade sobre ações e omissões também precisa estar em pauta. Se parte do trabalho operacional mudou, a formação do profissional precisa mudar. O erro é supor que a transformação acontecerá sozinha porque a tecnologia aumentou a velocidade da entrega.
O debate sobre juventude e IA não cabe mais na lógica binária entre substituição e sobrevivência. O que está em jogo é algo mais estrutural: como preservar a função formadora do início da carreira em um mercado que exige mais rapidez, mais repertório e mais discernimento desde cedo.
Este texto faz parte da edição 104 da Você RH, que chegou às bancas no dia 5 de junho. Clique aqui e confira outros conteúdos da edição.






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