É fato: LinkedIn gera ansiedade. Saiba lidar com ela sem abrir mão da plataforma
O uso saudável da rede profissional exige consciência crítica para consumir conteúdo que agrega e ignorar o que é vitrine ou publicações claramente exageradas.
No LinkedIn, todo mundo parece feliz no trabalho, crescendo na carreira e vivendo em empresas perfeitas. Esta percepção, segundo especialistas, pode gerar ansiedade em quem navega pela plataforma e não está bem profissionalmente. “Na prática, muita gente não está feliz, mas não mostra isso lá”, conta a consultora de estratégia e posicionamento Bruna Sabóia. “A rede estimula essa ‘performance’ de sucesso e quem não se identifica acaba se sentindo inadequado, comparando a própria realidade com uma versão idealizada do que vê no feed”.
Para Dan Batista, sócia-fundadora do Grupo Comportpet, especializado em mercado pet, é muito comum profissionais se sentirem ansiosos na comunidade virtual. “Do ponto de vista de gestão de pessoas, o LinkedIn se tornou um ambiente onde carreira, performance, reconhecimento e pertencimento estão constantemente em evidência”, diz a executiva, que também é dona da Comport Ensino. “Isso, por si só, já cria um contexto emocional sensível”.
Dados como esses, que apontam para os efeitos emocionais da plataforma, também são confirmados em pesquisas recentes feitas nos Estados Unidos. Na University of Pittsburgh, por exemplo, o departamento de psicologia identificou correlação entre frequência de uso de redes sociais e ansiedade vinculadas ao emprego, especialmente em jovens. Já na University of Leeds, um levantamento concluiu que ambientes digitais baseados em comparação profissional elevam o estresse e criam distorções na percepção de carreira.
A seguir, confira as principais razões que levam à ansiedade indicadas por Dan:
- Comparação social intensa e permanente: no LinkedIn, os usuários compartilham principalmente conquistas como promoções, certificações, reconhecimentos. Isso faz o profissional acreditar que está “ficando para trás” ao ver jornadas que parecem lineares e aceleradas, gerando sensação de inadequação.
- Exposição da identidade profissional: o perfil é uma vitrine. Muitos trabalhadores entendem que precisam estar sempre atualizados, produtivos e relevantes. Essa necessidade de “se provar” publicamente reforça a autocobrança e o medo de não ser bom o suficiente.
- Pressão por autoengajamento: hoje existe quase uma obrigação implícita em “produzir conteúdo”, criar autoridade, gerar valor, se posicionar… Para alguns profissionais, especialmente os mais introvertidos, isso gera forte tensão.
- Medo de perder oportunidades (FOMO profissional): o receio de não ver uma vaga, uma conexão ou um movimento importante aumenta o uso compulsivo da plataforma, intensificando a ansiedade.
Os públicos mais vulneráveis
Jovens em início de carreira, pessoas em transição ou em busca de emprego estão entre os mais vulneráveis à condição, de acordo com Bruna. “Além disso, grupos minorizados tendem a sentir um impacto ainda maior, porque enfrentam estresse adicional relacionado à falta de representatividade, à necessidade de provar competência e ao ’peso’ de navegar em ambientes profissionais onde padrões de sucesso não incluem suas realidades”, ressalta. “Como resultado, o LinkedIn pode reforçar a sensação de inadequação e a pressão constante para performar êxito”.
Dan concorda e diz que isso aparece em espaços corporativos e em processos de gestão. “Pessoas desempregadas ou em risco de desligamento, por exemplo, acabam transformando o LinkedIn quase em uma ferramenta de sobrevivência, o que aumenta o impacto de urgência”.
Há também os colaboradores com baixa autoestima ou histórico de insegurança profissional. “Eles são mais propensos a interpretar as conquistas alheias como sinais do próprio fracasso”, pontua a sócia do Grupo Comportpet. Além disso, ela cita os introvertidos ou com dificuldade de exposição. “Estes sentem maior desconforto diante da expectativa de produzir conteúdo e se posicionar publicamente”.
Dicas para manter o uso saudável da rede
O primeiro passo é aprender a filtrar o que é real do que é claramente exagerado. “A plataforma tem muito conteúdo valioso, artigos importantes e discussões profundas, mas também tem muita ‘performance de sucesso’”, alerta a consultora com uma dose de ironia. “Existe um movimento crescente de pessoas falando sobre burnout, ansiedade e ambientes tóxicos, porém, esses relatos quase sempre aparecem depois que alguém pede demissão ou é desligado”. Para Dan, existem três frentes essenciais para lidar com a vulnerabilidade sem abandonar a plataforma:
- Uso intencional e estratégico (não emocional): antes de abrir o LinkedIn, pergunte: “Qual é meu objetivo aqui? Networking? Atualização? Vagas? Conteúdo?”. Quando o uso se torna estratégico, e não reativo, a ansiedade tende a cair.
- Curadoria ativa do feed: o algoritmo entrega aquilo que você engaja. Portanto silencie perfis que geram comparação tóxica, siga páginas e líderes que agregam aprendizados e reduza exposição a narrativas irreais de sucesso constante. Isso cria um ambiente digital mais saudável.
- Gestão de tempo e limites claros: defina horários específicos de acesso, evite entrar compulsivamente, crie uma rotina de atualização do perfil sem excesso e produza conteúdo no próprio ritmo, e não por pressão externa. Para equipes, recomendo, inclusive, orientar colaboradores a usar o LinkedIn como ferramenta e não como termômetro emocional.





