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A parentalidade é uma escola de liderança

Em livro de estreia, cofundadora da consultoria Filhos no Currículo mostra como cuidar dos pequenos pode gerar ou aprimorar habilidades no trabalho.

Por Gabriela Teixeira
19 fev 2026, 14h00 •
Imagem, em fundo amarelo, da capa do livro "Coloque os filhos no currículo".
 (Great People Books/Divulgação)
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  • Criatividade. No relatório “Futuro dos Empregos”, publicado pelo Fórum Econômico Mundial (FEM) em janeiro de 2025, a competência aparece como a quarta das dez habilidades que mais serão valorizadas pelas organizações até 2030. Ainda segundo o FEM, nos próximos cinco anos, quase nove de cada dez empresas brasileiras pretendem investir no aprimoramento de sua força de trabalho, sendo o pensamento criativo uma das soft skills com previsão de crescimento mais acelerado.

    A iniciativa é louvável, mas treinamentos formais não são a única forma de desenvolver competências. Um outro caminho possível, mas pouco reconhecido, é a parentalidade. É o que defende a especialista em inteligência emocional Camila Antunes. “Enquanto empresas investem tempo e recursos em treinamentos de soft skills […], mães e pais vivem um MBA intensivo, não remunerado e sem pausas, com aulas práticas e comportamentais diárias”, ela escreve em Coloque os Filhos no Currículo, seu primeiro livro.

    A obra é inspirada nas experiências da própria Camila. Mãe de Bel, João e Tom, por muito tempo ela acreditou que precisava separar a maternidade da vida profissional, como se ambas fossem inconciliáveis. Foi somente após o nascimento do segundo filho que a escritora percebeu que a divisão é insustentável: o que acontece em casa ecoa no trabalho, e vice-versa.

    Da vivência nasceu também o PDI³, o Plano de Desenvolvimento Individual, Integral e Intransferível. A metodologia, criada pela consultoria Filhos no Currículo, da qual Camila é cofundadora, convida profissionais e empresas a olhar para a parentalidade como uma escola de liderança.

    No livro, ela estende esse convite a você, mãe ou pai leitor da Você RH. Que tal reconhecer e comunicar ao mundo a potência de sua jornada parental?

    Filhos e carreira: como facilitar essa combinação

    TRECHO DO LIVRO

    Parte 2

    Liderança com propósito

    Liderança não é apenas ter um cargo, tomar decisões ou gerenciar pessoas. Liderança com propósito é mover-se com sentido. É fazer escolhas alinhadas aos seus valores mais profundos, inspirar pelo exemplo e gerar impacto real nas pessoas ao seu redor, começando por quem está dentro da sua casa.

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    Na parentalidade, essa forma de liderar nasce no cotidiano silencioso: quando você acolhe uma birra sem perder o vínculo, quando negocia limites com escuta, quando toma decisões difíceis pensando no bem comum. É na presença e responsabilidade que se revela uma liderança mais ampla, mais consciente, mais transformadora. Quando olhamos para o PDI³, este é o passo de Integrar: não existe mais a “pessoa de casa” e a “pessoa do trabalho”. Existe uma só. Ao reconhecer o que você já vive e exercita na parentalidade, você leva essa competência para o mercado de forma consciente.

    Quando reconhecemos esse valor, ampliamos a nossa visão de liderança também no ambiente profissional. Passamos a entender que liderar com propósito é criar espaços onde as pessoas possam ser inteiras. É enxergar além dos resultados e valorizar processos, vínculos e o impacto que deixamos no mundo.

    Por isso, colocar os filhos no currículo é também declarar: “Eu lidero com propósito. Eu não escondo as partes da minha vida que me tornaram mais humana, mais empática e mais conectada. Eu as incorporo, as honro e as compartilho como parte do meu legado”.

    Liderar é também mediar conflitos

    Se existe um lugar onde os conflitos surgem com frequência, intensidade e urgência, esse lugar é dentro de uma família. Especialmente depois que os filhos chegam, a casa se torna um laboratório vivo de convivência entre temperamentos, fases, cansaços e necessidades diferentes. É o lugar onde os conflitos aparecem com mais naturalidade – e também com mais potência transformadora.

    Por isso, quando falamos em liderança autêntica, não podemos deixar de falar em gestão de conflitos. E não de forma técnica ou distante, mas a partir da escuta, da empatia e da prática diária que a maternidade nos ensina. Lembro de uma cena que se repetiu inúmeras vezes quando meus filhos eram pequenos: a briga pelo mesmo brinquedo. A mais velha dizia que estava com ele antes. O mais novo chorava porque queria exatamente aquele naquele momento. E ali, no meio da confusão, eu me via tentando resolver um problema com o mínimo de dano possível – não apenas ao brinquedo, mas às relações envolvidas.

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    A primeira reação sempre era tentar resolver rápido: “Empresta, filha!”, “Deixa ele brincar só um pouquinho!”. Mas, com o tempo, entendi que conflitos como esses não são interrupções do dia. Eles são o dia. São oportunidades de ensinar, de construir empatia, de fortalecer laços. São ensaios do mundo real.

    E foi nesse cotidiano que comecei a exercitar, sem perceber, as mesmas habilidades que o mercado chama de mediação de conflitos. Aprendi a ouvir os dois lados. A reconhecer a dor de cada um. A nomear os sentimentos. A buscar soluções criativas e respeitosas. E, acima de tudo, aprendi que não se trata de “quem tem razão”, mas de como a gente escolhe seguir mesmo depois de discordar. E que meu papel como líder era mediar conflitos também, não como juíza, mas como moderadora disposta a encontrar as melhores soluções para um dilema.

    No ambiente corporativo, líderes que fogem de conflitos ou tentam abafá-los rapidamente acabam alimentando ressentimentos silenciosos. Já os líderes que sabem escutar, nomear tensões e promover diálogo constroem times mais fortes, mais confiantes e mais leais.

    […]

    Ambientes seguros para crescer em casa e no trabalho

    Liderar é, antes de tudo, criar um lugar seguro para que outras pessoas possam existir, errar, aprender e crescer. É isso que os estudos sobre segurança psicológica mostram: times de alta performance não são os que erram menos, são os que se sentem à vontade para falar, propor ideias, admitir falhas e pedir ajuda.

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    Na parentalidade, esse aprendizado começa cedo. Por muito tempo, eu me vi como a única responsável por tudo dentro de casa: resolver, planejar, responder, dar conta. Era como se eu estivesse numa ilha, girando todos os pratos sozinha. Mas a vida foi me mostrando que isso não era liderança, era sobrevivência. E que, se eu continuasse assim, criaria filhos espectadores, e não participantes da própria vida.

    Foi aí que entendi: filhos não precisam só de cuidado – precisam de pertencimento. Precisam se sentir parte da engrenagem, com voz e espaço para contribuir. E, assim como no trabalho, o time só é forte quando cada membro entende seu papel e sabe que tem valor.

    Esse é mais um passo de Integrar no PDI³: sair da lógica da Guerreira que centraliza tudo para se tornar a líder que compartilha, confia e constrói junto. Na prática, isso significa abrir espaço para diálogo, nomear emoções, dividir tarefas, escutar sem corrigir de imediato, permitir que os filhos opinem e criem soluções próprias.

    No trabalho, o princípio é o mesmo. Equipes fortes nascem de lideranças que não querem ser o centro de tudo, mas que espalham potência. Que reconhecem talentos, incentivam autonomia, criam espaço para vulnerabilidade. Filhos – e times – que crescem em ambientes assim aprendem a confiar em si mesmos, sabem que podem errar e ainda pertencer, e desenvolvem coragem para contribuir, mesmo sem serem perfeitos.

    E o impacto disso não é só na vida deles – é na sua também. Porque quando você entende que não precisa carregar tudo sozinha, que liderar é formar um time, e não uma plateia, você se liberta da exaustão e dá um salto de consciência. Passa a enxergar a liderança não como peso, mas como oportunidade de criar futuros mais saudáveis, dentro e fora de casa.

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    Ambientes onde todos podem existir

    O verdadeiro teste de uma liderança não está nos dias de resultado perfeito, mas na forma como ela lida com o erro, com a diferença e com o silêncio. Construir um time forte é construir um ambiente onde todos possam existir, com suas forças, vulnerabilidades e jeitos únicos de ser. Onde o erro não é motivo de punição, mas de aprendizado. Onde o crescimento é um movimento coletivo.

    No trabalho, vemos líderes que sufocam a equipe com controle, medo e julgamento. Mas, se olharmos com atenção, quantas vezes reproduzimos esse modelo dentro de casa? Querendo que os filhos se comportem “direito”, que não façam barulho, que nos poupem do cansaço. Sem perceber, ensinamos conformidade em vez de pertencimento.

    O desafio da liderança integral é quebrar esse ciclo. É entender que seu papel, seja na família ou na empresa, é criar segurança psicológica; um espaço onde cada pessoa possa ser vista, ouvida e respeitada. Onde exista liberdade para experimentar, falhar, aprender e tentar de novo.

    […]

    Criar ambientes onde todos podem existir é, no fundo, um ato de coragem. É abrir mão do controle absoluto para permitir que outros assumam seu lugar. É confiar que o caos faz parte do processo de crescimento. É trocar a pressa pela presença e o julgamento pela escuta. E isso vale tanto para casa quanto para o trabalho.

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    […]

    Como construir times fortes em casa e no trabalho?

    » Divida responsabilidades: Confiança nasce quando as pessoas sabem que você acredita na capacidade delas. Filhos pequenos também podem ajudar, escolher, decidir. No trabalho, permita que sua equipe tenha espaço para atuar com autonomia.

    » Nomeie talentos e vitórias: Em casa, diga o que seus filhos fazem bem, reconheça os pequenos progressos. No trabalho, celebre aprendizados, valorize os acertos.

    » Crie um ambiente de escuta real: Onde todos possam falar sem medo. Onde não há resposta certa para tudo. Onde o diálogo vale mais do que a pressa.

    » Construa segurança psicológica: Permita que os erros sejam reconhecidos como aprendizados e não punições. Pergunte mais do que afirme. Ensine com empatia.

    » Seja exemplo de humanidade: Lideranças humanas criam times humanos. Mostre que você erra, sente, tenta de novo. Isso fortalece vínculos e dá permissão para as outras pessoas fazerem o mesmo.

    Este texto faz parte da edição 102 da Você RH, que chegou às bancas no dia 6 de fevereiro.

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