Brasil bate recorde de profissionais 60+ no mercado de trabalho
Apesar do avanço e da postura cada vez mais ativa e produtiva desse público, para 87% deles, o etarismo ainda limita oportunidades.
O Brasil registrou o maior número de idosos trabalhando desde o início da série histórica do IBGE: 8,3 milhões de pessoas com 60 anos ou mais estavam ocupados em 2024, representando 24% dessa população do país. Na faixa entre 60 e 69 anos, o avanço é ainda mais expressivo (34%) e, entre os homens, esse índice alcança quase metade (48%). “A longevidade no mercado já é uma realidade concreta”, afirma Camila Pires dos Santos Garcia, gerente de RH da SGF Global no Brasil.
Segundo ela, profissionais acima dos 60 anos seguem ativos porque o trabalho representa propósito, pertencimento e aprendizado contínuo, não apenas remuneração. “Esse público carrega um repertório valioso de experiência, visão estratégica e resiliência, atributos que fortalecem resultados e culturas organizacionais em um cenário que exige adaptação constante”.
Um outro estudo, Oldiversity, feito pela Croma Consultoria, mostra que a geração 60+ combina consciência do envelhecimento com autonomia e planejamento. De acordo com os dados, 92% dos respondentes da faixa etária afirmam se alarmar com a própria manutenção, e 91% dizem se preparar para não perder o bem-estar à medida que envelhecem. “Os mais velhos se preocupam muito em como se manter produtivos, tendo em vista que estão cientes de que a população será composta em sua maioria por idosos no futuro”, diz Edmar Bulla, fundador da Croma Consultoria. “Além disso, eles mantêm forte intenção de investir na qualidade de vida, seja para não perder a condição que já mantêm atualmente ou para garantir isso nos próximos anos”.
Diversidade etária também é decisão estratégica
Essa postura ativa, no entanto, convive com a percepção de barreiras persistentes: 87% dos 60+ acreditam que empresas discriminam pessoas mais velhas nos processos de contratação, evidenciando que, apesar do avanço na ocupação, o etarismo ainda limita oportunidades. Para Camila, aliás, esse preconceito restringe também a diversidade cognitiva e reduz o potencial de inovação das empresas. “Organizações que promovem a convivência entre gerações constroem equipes mais produtivas, criativas e engajadas”, diz.
“Do ponto de vista da gestão de pessoas, é essencial revisar processos seletivos para eliminar vieses, investir em desenvolvimento contínuo, estimular a troca entre idades por meio de mentorias e adaptar políticas e benefícios às diferentes fases da vida”, descreve a especialista de RH, que defende a diversidade etária não apenas como pauta de inclusão, mas também como decisão estratégica. “Ao integrar profissionais maduros, as empresas ampliam sua capacidade de inovar, equilibrar perspectivas e se preparar de forma mais consistente para os desafios futuros.”
Alerta para a informalidade
Os números do IBGE também revelam mudanças no perfil desses trabalhadores: apenas 17% dos idosos ocupados atuam com carteira assinada, enquanto 51% trabalham sem registro, por conta própria ou como empregadores – cenário significativamente superior à média nacional. Apesar desse maior peso da informalidade, a renda média desse grupo, de R$ 3.561 mensais, supera em 14% o rendimento médio da população geral ocupada. Segundo Edmar, isso confirma o potencial econômico dessa faixa etária.
Além da presença crescente no mercado, a forma como os idosos se relacionam com marcas e consumo também está mudando. De acordo com o estudo Oldiversity, 64% acreditam que empresas não devem “levantar bandeiras” ideológicas em suas propagandas e 57% se definem como independentes, reforçando uma postura mais crítica, seletiva e exigente diante de discursos corporativos.
Para o executivo da Croma Consultoria, o conjunto dos dados revela que o país vive um ponto de virada. “A maturidade deixou de ser associada à inatividade e passou a representar um ciclo de reinvenção, contribuição econômica e protagonismo social”, descreve. “Reconhecer essa transformação e incluir o público 60+ de forma respeitosa, estratégica e livre de estereótipos é um passo essencial para empresas, comunicadores e para o próprio desenvolvimento do Brasil, diante de sua nova realidade demográfica”.







