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54% dos brasileiros que planejam empreender em 2026 são mulheres

Tendência chama atenção no Dia Mundial do Empreendedorismo Feminino, pois indica uma inversão no número de registros. Informalidade, porém, ainda é desafio.

Por Izabel Duva Rapoport
19 nov 2025, 14h28 •
Ilustração de um grupo de mulheres de negócios juntas.
 (gmast3r/Getty Images)
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  • Mais da metade (54,6%) dos brasileiros com intenção de empreender até o ano que vem é mulher, conforme indica o último relatório GEM (Global Entrepreneurship Monitor), do Sebrae. A tendência ganha destaque hoje, 19 de novembro, no Dia Mundial do Empreendedorismo Feminino – criado pela ONU em 2014 para ampliar a visibilidade da mulher na chefia dos negócios –, pois sinaliza uma possível inversão no número de registros formais do país. Em 2022, de acordo com o IBGE, elas representavam 46,4% dos 14,6 milhões de microempreendedores.

    Porém, na informalidade, o cenário já revela maioria feminina. Segundo o estudo “Todos Podem Empreender”, feito pela Aliança Empreendedora, o Brasil tem cerca de 25 milhões de microempreendedores nesta situação, com ou sem CNPJ – o equivalente a 26% da população ocupada. Desse grupo, 34% são mulheres, com mais da metade (54%) negra, cujos perfis geralmente não têm o alcance das políticas públicas tradicionais, diz a organização.

    “A informalidade é resultado direto das desigualdades de gênero e da falta de estrutura de apoio à mulher que empreende”, ressalta Lina Useche, cofundadora e head de relacionamento institucional da Aliança Empreendedora. “Muitas recorrem ao trabalho autônomo como alternativa à ausência de vagas formais, mas enfrentam barreiras que dificultam a consolidação dos negócios”. Para ela, compreender o contexto de vida dessas mulheres é essencial para que qualquer política de incentivo seja efetiva. “Quando olhamos para o tempo de dedicação delas aos empreendimentos, notamos um grande desafio. O próprio Sebrae mostra que ele é, em média, 18% menor que o dos homens”.

    Economia do cuidado

    Essa diferença, de acordo com Lina, está diretamente ligada à chamada “economia do cuidado”, sustentada pelas mulheres. “Elas cuidam do lar, dos filhos, dos pais idosos e ainda tentam gerar renda a partir de um empreendimento que, muitas vezes, é feito dentro de casa!”, descreve a especialista. “Essa tripla jornada é extremamente desafiadora”.

    A executiva destaca que a falta de redes de apoio é um dos principais gargalos para o avanço do empreendedorismo feminino. “A política pública precisa entender que essa é a realidade, pois temos um contingente imenso de mulheres que são a base das suas famílias”, afirma, citando sistema de creche e políticas de cuidado. “Tudo isso é fundamental para que elas possam empreender e gerar renda de forma sustentável”.

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    Caminhos em contexto de vulnerabilidade

    Uma das metodologias da organização, de apoio ao empreendedorismo de base, é voltada para o ensino de adultos com fundamentos antirracistas e feministas. “Partimos do princípio de dar visibilidade às interseccionalidades, porque empreender sendo uma mulher negra, por exemplo, é completamente diferente de empreender sendo um homem branco”, ressalta Lina.

    O conceito central da interseccionalidade, que considera marcadores sociais como raça, gênero, classe e território, busca impactar a jornada de cada empreendedora. Para explicar, a executiva traz como referência o conteúdo de formação de preço. “Não podemos simplesmente chegar com uma fórmula pronta. Quando falamos de precificação, falamos também de honrar o próprio trabalho”, diz. “É fazer com que essa mulher entenda quanto vale sua hora, reconheça o valor do que produz e tenha autoconfiança para cobrar por isso”. Segundo ela, empreender é o primeiro passo de muitas delas para conquistar autonomia financeira e emocional.

    Liderança sem rótulos

    Lidar com a expectativa de se encaixar em um padrão é um dos principais desafios das mulheres à frente de uma empresa. “Quando ela é firme, dizem que é dura; quando é sensível, chamam de emocional. Eu defendo que a liderança acontece quando a mulher é inteira, e não quando tenta caber em uma caixinha”, conta Natália Simony, CEO do Elite Seja AP, um programa de estruturação de negócios e de alinhamento entre equipes e gestores.

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    Para ela, a força da liderança feminina está no equilíbrio entre decisão e cuidado, razão e sensibilidade, direção estratégica e ambiente saudável. “Liderar com empatia não é ser boazinha. É entender pessoas, contextos e limites, e ainda assim tomar decisões difíceis quando necessário”.

    Natália também traz um posicionamento sobre a expectativa de perfeição que recai sobre mulheres em cargos de destaque. “Nós carregamos muitos papéis, e está tudo bem não dar conta de tudo. O problema é acreditar que precisamos ser perfeitas para merecer estar onde estamos”, compartilha a executiva. “Não é sobre perfeição, é sobre presença, coerência e consciência”.

    A mulher no futuro do trabalho

    Ao olhar para o futuro, Natália acredita que a liderança será cada vez mais sobre autogestão, clareza e inteligência emocional. “Não é possível sustentar performance sem bem-estar”, afirma. “Método e tecnologia ajudam, mas o que mantém os líderes de pé é equilíbrio, consciência e capacidade de se reconectar com seu propósito”. A presença feminina no comando, segundo ela, amplia perspectivas, traz um olhar sistêmico e fortalece caminhos mais humanos e completos. “Diversidade não é bandeira, é estratégia. E quanto mais histórias diferentes sentam à mesa, melhores são as decisões”.

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